Coisas de trintona...

Dezembro 10 2003
Meu Deus, no que me vou meter hoje! Ok, vou respirar fundo e começar...
...
A pergunta que se impõe é: serão os homens realmente tão diferentes das mulheres nas questões do amor? Estou tão cansada de ouvir coisas como «os homens são mais racionais», «as mulheres complicam tudo», «os homens são todos iguais», «as mulheres são todas iguais», «os homens só pensam em sexo», «os homens gostam de ser maltratados», «as mulheres falam venusiano e os homens falam marciano», e tantas outras barbaridades que passamos, todos nós, o tempo a vomitar, uma vezes com fé, outras apenas como desabafo. Não será que queremos todos o mesmo?
Será verdade que os homens são educados (por nós mulheres/mães também, é verdade) para esconderem sentimentos? Será que «os homens não choram»? Será que não ambicionamos todos o mesmo: «assentar» com aquela pessoa que nos faz sentir um conforto inexplicável?
Quantos homens conheço eu que tinham todas as namoradas que queriam; namoravam várias ao mesmo tempo; apregoavam aos ventos que o casamento não era para eles; viviam a vida a mil; parecia que não gostavam de ninguém a não ser de si próprios; magoavam todas as mulheres que encontravam pela frente... até ao dia em que conheceram uma mulher, a menos bonita de todas, a mais tímida e cinzenta de todas, a menos interessante de todas, e casaram com ela, acalmaram, mudaram a 200%!
Ou mulheres que apregoam a sua individualidade e depois se submetem a estranhas formas de vida; ou que defendem com unhas e dentes certos valores intocáveis e «no escuro» são mais cruéis com os homens que muitos deles!
Eu acho que todos queremos o mesmo, mas manifestamo-lo de formas diferentes por obrigação social. As mulheres não são complicadas, simplesmente verbalizam mais o que sentem. Antecipam-se. Os homens têm tantos medos quanto nós. Os homens têm tanto medo de amar quanto nós. E o fardo para eles até é mais pesado, porque a sociedade não os deixa carpir as suas mágoas como as mulheres. Para nós é aceitável o choro, a lamechice de sofredora por um coração destroçado; aos homens isso não é permitido; associa-se a fraqueza.
Há mulheres que superam um coração destroçado muito melhor que certos homens. Conheço um ou outro caso de homens que por uma desilusão amorosa se tornaram as pessoas mais revoltadas e cinzentas que conheci até hoje.
No caso dos trintões e das trintonas os epítetos e os chavões tornam-se mais graves, porque cada um de nós sente o relógio biológico de tal forma que parece que os outros conseguem vê-lo a bater no nosso peito. Nós, mulheres, somos logo apelidadas de «trintonas solteironas» tresloucadas que correm desesperadamente atrás de um noivo «voluntário à força». Ou então, as que já estão casadas, são vistas (muitas vezes até pela própria concorrência, perdoem-me a expressão) como velhas e acomodadas e sem o brilho de outrora. Os trintões são vistos como estando no seu auge, a idade do «posso tudo, mas agora com outra sabedoria», cobiçados mesmo se estão casados (ainda para mais se tivermos em conta que a proporção será de várias mulheres «para» cada homem!). Só há uma diferença que me irrita: é que para uma mulher, estar solteira aos trinta não é muito aceitável, é tarde... Para um homem, não, é normal. Sei que a questão está associada à maternidade, mas a sociedade atribui-lhe um sentido pejorativo, tipo «mulher trintona é mulher fora de prazo».
E verdade seja dita que nós próprias sentimos essa pressão, a incorporamos, deixamos que esse preconceito nos entre na pele como uma doença. De tal forma que até nos inibimos de mostrar como estamos, isso sim, nos nossos melhores anos! A líbido lá em cima; o relativismo melhorado; a sabedoria acumulada; a segurança adquirida. Mas a sociedade impõe-nos uma marca de apressadas, complicadas, desesperadas, perturbadas...
Provavelmente todos nós nos deixamos vencer pelo cansaço. O cansaço de estarmos sós; de termos conseguido estudar e trabalhar até aí, até esse ponto em que «agora preciso é que tomem conta de mim outra vez». A transição entre a casa dos pais e a nossa casa com a nossa vida e os nossos dissabores, é complicada. Porque na casa dos nossos pais estavam lá eles para, melhor ou pior, nos emprestarem a suas mãos para nos aparar a dor ou as faltas de dinheiro ou de prazos. Quando passamos a ter aquilo que sempre quisémos, «o nosso espaço», deixamos de ter coragem de lhes pedir esse apoio tão frequentemente, mas sentimos falta dessa partilha. Porque todos nós precisamos de cuidar de alguém e que alguém cuide de nós.
Todos queremos o mesmo, acho eu: um homem ou uma mulher ao nosso lado que nos faça sentir que somos importantes para ele/ela; que nos conte todos os dias, ou nos oiça, o detalhe mais estapafúrdio, inusitado mas delicioso do mundo; que confie em nós e em quem confiamos de olhos fechados e a mil kilómetros de distância; que sem que tenhamos que pronunciar uma única palavra nos compreenda quase como a si próprio(a); que se sinta à vontade para descarregar em nós uma frustração... até que a morte nos separe.
publicado por 30girl às 00:16

Continuo a pensar que o homem e a mulher são como a porca e o parafuso... apenas fazem sentido quando estão juntos.

Paulo Ferreira a 23 de Dezembro de 2003 às 17:08

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