Coisas de trintona...

Setembro 05 2005
A nossa existência nesta vida a que chamamos de humana e num sítio a que chamamos de planeta Terra, está presa por um fio que se chama corpo. Esse fio é tão depressa ultra resistente, como leve e fraco capaz de tombar com um sopro. Mas é o que temos, e vamos desde já assumir que apenas temos um.

Com ele somos capazes de fazer tanto e tão pouco. Por ele se pauta a qualidade da nossa vida. Por causa dele temos mais ou menos 80 anos (estou a ser optimista?) para viver da melhor maneira que conseguirmos.

Todos nós sabemos isto, suponho, mas só quando levamos um valente susto é que paramos para pensar «Só já tenho X tempo de vida e ainda não fiz nem um terço do que queria!». Às vezes só quando vemos as coisas de muito perto é que percebemos realmente a dimensão que elas têm. É o caso da doença, ou seja, tudo aquilo que enfraquece ou destrui a nossa existência (de corpo e alma). Este é, aliás, o único desafio (ou quase o único) que o Homem ainda não conseguiu vencer: garantir que a matéria que nos sustém não se degrade. O envelhecimento do nosso corpo é algo que ainda nos vence.

E o pior é que nós, estupidamente, teimamos em não deixá-lo envelhecer, cometendo barbaridades. Comemos mal, mexemo-nos pouco, entupimo-nos de químicos ao mínimo sintoma, e, mais ridículo ainda, tomamos álcool e drogas desmesuradamente. O ser humano tem esta capacidade incrível enquanto predador: teima em matar-se a si próprio. Refiro-me aos seus semelhantes, mas pior ainda, cada indivíduo a si mesmo. E na maior parte das vezes por razões no mínimo ridículos. Teimamos em continuar a comer porcarias, deixamo-nos engordar, e só quando já não conseguimos mexer-nos, quando nem conseguimos ver os pés, quando arfamos por tudo e por nada, quando vamos parar ao hospital com mil e um sintomas «simplesmente» por obesidade, é que pensamos que gostaríamos de voltar atrás no tempo.

Ou tomamos tanta porcaria para emagrecer e cometemos tantas barbaridades para emagrecer, que um dia o nosso fígado recusa-se a continuar a trabalhar.

Fumamos que nem umas bestas, porque é giro, porque dá estilo, porque sabe bem, e só quando o corpo se queixa (às vezes logo aos trintas e tais) é que paramos para pensar que se calhar, quando o corpo se queixa, é porque a coisa já está adiantada. Como é possível alguém fumar um cigarro logo às 8 da manhã? Ou fumar 20 cigarros por dia? É de loucos!

E já nem falo no resto....

Só sei é que temos que parar para pensar. Se já há tantos furacões, tantos terramotos e maremotos, tantos incêndios, tantas pessoas loucas a matar outras, porque é que insistimos em matar-nos a nós próprios a cada minuto que passa? E de que serve gastar tanto dinheiro, tantos nervos, tantas lágrimas, a cuidar de nós, se a seguir puxamos de um cigarro outra vez, ou voltamos a comer desalmadamente, ou voltamos a enfiar uma garrafa pelas malditas goelas abaixo? É no mínimo incongruente.

Por favor não me respondam que o Homem não é congruente. É a resposta mais fácil. Temos que conseguir chegar mais longe que isso.

A minha mãe saiu do hospital, mas a gravidade da sua doença continua. Cancelei o meu casamento, ainda sem nova data, porque achei que ía perdê-la já. Agora as coisas estão um pouco melhores. Apenas a nível de sintomas, porque todos os dias penso que já não se pode voltar atrás e que a cada dia que passa esse tempo atrás fica realmente cada vez mais distante... faço-me entender?

Só quando a vida nos dá com força, é que usamos estas nossas cabeças atrofiadas para pensar que tudo isto passa muito, mas muito depressa, e que cabe a nós decidir como queremos viver com a nossa cabeça, com a nossa alma, com o nosso corpo, com os outros. Mas nunca devemos esquecer-nos de uma coisa: sempre que dissermos: «Vivo como quero, o corpo é meu», se um dia esse corpo nos tramar, ele deixa de ser nosso para passar a ser daqueles que terão que nos alimentar, lavar, cuidar, para que possamos viver o resto do tempo que falta a desejar voltar atrás no tempo. Afinal, o nosso corpo não é só nosso. Nada é só nosso.

Eu assumi que o meu corpo não é só meu há já algum tempo: sou dadora de sangue e dadora de medula. São duas das maneiras mais simples de ajudar os outros e de contribuir para ajudar quem precisa, principalmente aqueles que, por injustiça da vida, passaram (ou começaram) a ter um corpo doente só porque a «Natureza» assim o quis.

Porque tenho medo do que o meu corpo se possa tornar um dia.
publicado por 30girl às 00:51

obrigada. Assim espero. E é verdade: somos o que fazemos e o que deixamos que façam connosco.
30girl a 15 de Setembro de 2005 às 20:32

A maior força para ti e que a tua vida se encaminhe de novo numa boa direcção.
Melhoras para a tua mãe e felicidades para o teu casamento.
Quanto ao corpo, nós somos o que fazemos, é uma frase feita mas é das mais certas....
Jmn a 10 de Setembro de 2005 às 00:50

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