Coisas de trintona...

Março 13 2004
Queria deixar uma reflexão a propósito do terrorismo.

Lembro-me de em miúda ter lido «O Diário de Anne Frank» e de na altura, apesar de saber que o Holocausto tinha sido, infelizmente, uma realidade, parecia-me muito distante o facto de alguma vez eu poder vir a sentir o medo da perseguição. Sentir terror. É curioso, sem ter qualquer piada, que um dos meus sonhos recorrentes tem a ver com perseguição de nazis (alguém quer interpretar?!). Mais tarde vi «A lista de Schindler». Choro sempre quando vejo o raio do filme!

Quando chorei no 11 de Setembro, a olhar para aquelas pessoas que saltavam das Torres, -tal como ontem, ao ver a expressão nos rostos dos feridos em Madrid-, percebi como as coisas não estão tão distantes de nós quanto pensamos. A sociedade mediática encarrega-se, é verdade, de nos fazer chegar as coisas (só não o fez em relação ao massacre do Ruanda com o mesmo impacto, embora o número de mortos tenha ultrapassado o do 11 de Setembro em centenas e centenas por cento. E nem falo no resto do mundo.). Depois de ontem, acredito muito sinceramente que também nós, portugueses, deixámos de estar aqui escondidos e que corremos sérios riscos. Muito mais com um Euro2004 e um Rock’in’Rio à porta.

Mas a verdadeira razão porque quis escrever sobre este assunto, foi porque uma questão «psicofilosófica» me deu de chofre. Conduzia o meu carro e pensava no horror de Madrid e nos riscos, quando um CD começou a tocar no leitor. Era uma música cubana e aquele ritmo fez-me saltar de imediato das minhas preocupações sobre o 11 de Março, para a alegria de cantar e tentar dançar aquele som. E pensei: «Como é que as dimensões individual e social da existência humana conseguem estar tão separadas? Como conseguimos horrorizar-nos com um ataque terrorista e no minuto seguinte estarmos muito preocupados com a mais banal questão da nossa existência?». Reparem, esta é uma pergunta meramente retórica, porque conheço a explicação da Psicologia. E nem sequer estou a querer dizer que sinto vergonha pelo que aconteceu porque sei que é um acto espontâneo. Mas a questão que no fundo quero colocar é a seguinte: nós, os anónimos da «sociedade civil», temos capacidade para nos preservarmos, ou para sequer lidarmos com estas ameaças e com esta incerteza de não sabermos se nos calhará uma surpresa destas, sem falarmos em número de vítimas, mas conseguirmos distinguir dentre elas o «Manel», a «Maria», o «António»?

Saberemos lidar com isto? O melhor é nem pensar e continuar como até aqui?

Acho que não. Penso que quanto mais o horror está próximo de nós ou dos que nos estão próximos, mais capacidade temos de mudar por dentro sem que se note por fora. Passamos a valorizar certas coisas que antes nem tínhamos em consideração ou nem sabíamos que existiam. Ontem tive uma dessas situações. Estava no cinema com 2 amigos; 5 minutos depois do filme começar a minha amiga sentiu-se mal, saiu, desmaiou, ficou dormente, foi para o hospital. Ficámos lá até às tantas da manhã. Ela tinha tido um acidente no dia anterior e a batida provocou uma reacção na cervical que acabou por influenciar os nervos das mãos e dos braços. No tempo de espera pensei nela, nas coisas que já vivi com ela (melhores e piores), nas coisas que estava a viver ali, no que tinha acontecido em Madrid, voltava a pensar nela, reconfortava-a, falava e ria com o outro meu amigo... enfim, um turbilhão de sensações. E de tudo aquilo só há uma palavra e a correspondente sensação que me ficou mais viva: o carinho, os mimos, a sensação de conforto interior de que falava Crystal. Apesar do contexto, o que guardo é a sensação de carinho.

E andamos às vezes por aí a agredir-nos (nós, pessoas) por tudo e por nada, por uma palavra que não nos agrada, ou por uma convicção político-religiosa...

Lembrei-me de uma cena de um desses filmes sobre o Vietname (ou seria sobre a II Guerra Mundial?), em que um soldado dizia que a dimensão do horror da guerra estava na proximidade com a sua vítima: disparar para longe e perceber que estava a morrer gente era incomparável ao horror de olhar nos olhos o inimigo e, aí sim, provocar-lhe a morte, perante a expressão do medo de morrer. O medo de morrer só se expressa pela proximidade?

Acho que já estou a divagar. Isto faz-vos algum sentido? Nem sei se terei conseguido expressar o que queria dizer. Nem sei bem se era isto que eu queria dizer. Nem sei bem se as coisas são comparáveis ou sequer associáveis.
publicado por 30girl às 00:15

Acho que foram "os anonimos da sociedade civil" que ocorreram imediatamente ao local para apartilharem a dor das vitimas e a cima de tudo ajudarem- veja-se as filas interminaveis p dar sangue. Num país dito dividido, a união que se tem visto entre as pessoas só a posso considerar, no minimo altruista. Por isso este grande povo fez-me acreditar na humanindade novamente. Nem tudo está perdido 30girl!
Trintapermanente a 13 de Março de 2004 às 15:18

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