Coisas de trintona...

Fevereiro 20 2004
Decidi hoje escrever sobre os livros de auto-ajuda porque eu própria os descobri há relativamente pouco tempo, embora fosse daquelas pessoas cépticas em relação aos mesmos. Passo a explicar.
Sempre tive a ideia de que os livros de auto-ajuda eram publicações de «psicologia barata de café» que compilavam mil e uma técnicas para tudo e mais alguma coisa. Essa imagem era passada também pelos filmes que ironizam o tema, nomeadamente «Down with love», com Renée Welzegger e Ewan McGregor. Eu achava que quem lia livros destes eram pessoas que já estavam numa fase de desespero tal que se agarravam a qualquer coisa.
Eu própria, num dos meus primeiros artigos (Amar aos trinta (II) - Homens versus Mulheres?) refiro um desses livros («Os homens são de Marte, as mulheres de Vénus»). Depois de escrever isso fiquei a pensar que não deveria fazer referências a coisas que não conheço, que não li. Senti-me uma crítica sem conhecimento de causa e isso é injusto.
Como estava a passar um processo de redescoberta interior, tomei a decisão de ler alguma coisa que me ajudasse a pensar, para sair um pouco do meu circulo vicioso (porque era assim que me sentia: às voltas sem sair do mesmo lugar; queixando-me sem mudar). Dirigi-me à FNAC do Chiado e num momento de frenesim gastei quase 100 euros em livros de auto-ajuda, meticulosamente escolhidos (precisamente para não cair no erro de escolher os tais livros «baratos»).

Confesso que já li alguns e que fui agradavelmente surpreendida, porque:
1) Os autores são pessoas com formação em Psicologia e afins, o que considero que, apesar de os livros estarem escritos de forma simples, os seus conteúdos estão baseados em fundamentos da Psicologia;
2) Os livros fizeram-me reflectir sobre os meus actos porque na verdade nós estamos a ler e a pensar: «Mas isto acontece realmente assim comigo!»;
3) Tenho posto em prática algumas posturas, atitudes, comportamentos, sugeridos nesses livros e realmente têm produzido efeitos positivos.

Ora, agora que já estou «do lado de cá», mudei completamente a minha perspectiva das coisas e acho que a minha postura anterior era extremamente intolerante e preconceituosa. Existem dois tipos de livros neste grande conjunto dos designados «livros de auto-ajuda», e que parece que agora estão de novo na moda:

A) Os livros que geralmente se designam «X técnicas para conquistar o homem da sua vida» e outras semelhantes. Tentam ser livros de instruções para ganhar muito dinheiro, para casar com um homem rico ou só para casar, para conseguir a profissão com que sempre se sonhou, enfim... livros que parecem de receitas milagrosas para se ter tudo o que se quer. Mas estes livros, bem vistas as coisas, têm uma vantagem: por detrás de toda esta «fantochada» de técnicas e truques para conquistar seja o que fôr, vão no fundo dando indicações psicológicas camufladas de comportamentos que produzem efeitos positivos e dos que produzem efeitos negativos, na senda da velha máxima «comportamento gera comportamento». Lembrei-me agora de um livro que vi resumido numa revista (não me lembro agora qual, nem autora ou nome do livro, mas depois verifico), que é escrito por uma gestora e que aplica as técnicas da gestão à «caça» de marido. É incrível! Uma gestora de sucesso publica um livro do mais calculista que pode haver, justificando-se com o desequilíbrio de proporção entre homens e mulheres na América, e dizendo que cada mulher é um produto que tem que ser bem gerido para ser vendido (interpretação minha). Lembrei-me também de outro (ando de olho nele para o comprar há já algum tempo), que é «Uma sátira à indústria de livros de auto-ajuda. Hilariante e divertida, esta obra de rir até à gargalha levanta questões pertubantes sobre a maneira como decidimos viver.» (citado no site da FNAC). A obra é «Felicidade» de Will Ferguson.

B) O segundo tipo de livros é mais sério (na minha modesta opinião); são aqueles cujos autores são psicólogos e outros terapeutas com muitos anos de experiência, e que através de uma linguagem muito acessível e com imagens ou construções simplificadas mas com grande «psicologia», nos fazem olhar para nós mesmos, reflectir, confrontar a nossa com outras perspectivas. São os verdadeiros livros de auto-ajuda, o objectivo é cumprido, e vê-se que a escrita é séria. Um desses livros, e que eu já li, tem, ironicamente, um título que me fez enquadrá-lo automaticamente na categoria A. Todavia, dei-me ao trabalho de ler a contracapa e de folhear algumas páginas que fui lendo na transversal antes de o comprar. Agora que o li, ajudou-me muito. O seu título é «Como obter o que quer e apreciar o que tem», de John Gray (o mesmo autor de Marte-Vénus), e é dele que quero falar um pouco, mas num outro artigo, que este já vai longo e o tema merece destaque.

Afinal estes livros são para mim como (ou melhores) os livros tão criticados da geração «Rebelo Pinto & Ca.»: se eles fizeram com que as pessoas passassem a ler mais, que têm eles de mal? Ninguém é obrigado a ler só Saramagos (que não gosto) e afins. E não sou menos culta por não ler e nem gostar de Saramago. Ele até pode escrever muito bem e ser Nobel, mas se ninguém conseguir lê-lo ou gostar de o ler, qual é o seu objectivo social? Como dizia Kafka: «Se um livro não nos acorda com um murro na cabeça, para quê lê-lo?».
publicado por 30girl às 00:41

LI de Alberoni «Enamoramento e amor» e «O altruísmo...». Mas ele tem uma escrita difícil, não muito acessível como a dos livros que referi. Por vezes roça mesmo a filosofia.
30girl a 23 de Fevereiro de 2004 às 01:26

Recomendo Francesco Alberoni, sociologo italiano.
Escreveu, entre outros livros: "enamoramento e amor", "amizade", "valores", "o erotismo", "amo-te". A não perder!
Trintapermente a 20 de Fevereiro de 2004 às 09:35

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