Coisas de trintona...

Fevereiro 13 2004
Vou desafiar-vos para um exercício de reflexão, que peço que o façam antes de lerem o resto do meu artigo. Tentem responder a estas duas questões:

- Quantas vezes no dia ou no mês, ou relativamente a quantas pessoas, tentaram viver a vida delas, viver/fazer por elas o que é suposto serem elas a viver/fazer?

- E observando os outros, já se aperceberam se fazem isso e que tipo de pessoas o fazem (familiares? amigos?)?

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Ok. A que conclusões chegaram?
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Quanto a mim cheguei a conclusões muito poderosas recentemente. Ou a uma grande conclusão que pode desdobrar-se. Tomei consciência que tenho passado muito tempo a tentar viver a vida dos outros, principalmente no sentido de querer substituir os outros num percurso que só eles próprios têm que percorrer.
Cada um de nós tem caminhos que não podem ser percorridos por mais ninguém, sob pena de ficarmos castrados numa aprendizagem (aqui num sentido muito lato) qualquer. A verdade é que gastamos muita energia centrados nos outros: o que os outros dizem, o que os outros pensam de nós, o que os outros sofrem, o que os outros devem fazer, o que os outros devem dizer, como os outros devem amar, no «quando» os outros devem fazer ou dizer seja o que for precipitando os seus timings, e tantas outras correrias descentradas de nós mesmos que nos levam à exaustão emocional.
Um dia algo ou alguém faz-nos parar para pensar que temos que viver a NOSSA própria vida, a nossa identidade, fazer a nossa própria mudança e não precipitar a mudança dos outros. Paramos para respirar fundo e aceitar mais os outros como são, sem querer mudá-los, sem querer que eles pensem, sintam e ajam como nós, no nosso timing. E a ironia disto tudo é que neste processo da nossa ingerência na vida e no ser dos outros, muitas vezes sentimos uma certa mágoa por estarmos a «dar» tanto e ainda assim sermos rejeitados.
Aí é que está: há uma diferença entre dar e interferir, entre dar por dar e dar exigindo, entre dar algo de nós e impôr algo de nós. Vivemos as dores e os percursos dos outros, na ingenuidade de querer ajudá-los, sem precebermos muito bem a fronteira, sem percebermos que tal como uma criança precisa cair e reerguer-se para aprender a andar sem medo, também um adulto precisa que alguns processos demorem mais tempo e que sejam vividos «em solidão». Se os precipitarmos e ainda por cima impondo um contexto que é nosso, uma perspectiva que é nossa, corremos o risco de o processo ter efeitos opostos aos que era suposto.
Quantas vezes por falta de paciência e de ponderação, falta de saber esperar, não precipitámos pessoas e factos, e deitámos tanto a perder?
E já nos bastam os nossos fardos. A partilha, a comunhão, o altruísmo, são muito bons. Mas se calhar devíamos passar mais tempo centrados em nós, nas nossas capacidades e defeitos, nos nossos objectivos, nos nossos percursos e nas nossas aprendizagens. Que se fazem também com os outros, é certo, mas o ideal é que procuremos sempre aceitar mais a diferença e o que os outros têm para nos dar e à sua maneira, e deixarmos de impôr tanto a nossa identidade.
publicado por 30girl às 00:56

Obrigada, namurg. Volta sempre e comenta!
30girl a 15 de Fevereiro de 2004 às 15:28

É a primeira vez que estou aqui no teu blog, gosto da foma como escreves e considero os temas intressantes e muito actuais.
Com certeza vou voltar aqui mais vezes.
namurg a 14 de Fevereiro de 2004 às 16:40

O blog da segunda adolescência.
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