Coisas de trintona...

Janeiro 08 2004
Hoje quero escrever sobre um assunto que me tem causado grande revolta devido à intolerância das pessoas. E escrevo a propósito de (mais) dois comentários recentes que ouvi.
Aconteceu que no fim de ano fui para uma festa em casa de uma amiga. Éramos várias mulheres na faixa dos trinta (e tal...), solteiras. Havia uma divorciada e um divorciado também. Quando comentei com alguém que ía para essa festa, o comentário que ouvi, em tom sarcástico foi: «As solteironas todas!»
O segundo comentário foi de um amigo que me disse a propósito de uma dessas minhas amigas que se ela era bonita, inteligente e solteira, estando na faixa dos trinta, só podia ter um problema qualquer.
O primeiro comentário veio de um homem trintão, casado e pai, que casou com o seu amor de sempre (namorada de há 15 anos) e que está bem na vida. O segundo comentário veio de um trintão, solteiro, com os seus problemas e ansiedades como qualquer um de nós nesta vida.
Irritam-me solenemente estes comentários! Quando será que as pessoas deixam de ser tão intolerantes?? Será que ser «trintona solteirona» (e já estas expressões são carregadas de sentido pejorativo) significa que se tem alguma doença contagiosa? Seremos freaks? Olha que merda! Porque é que as pessoas não param para pensar que esse tipo de comentários é descriminatório, sexista, intolerante, que magoa, que mostra falta de inteligência, falta de sentido humano, falta de compreensão e falta de sensibilidade, ou até falta de coragem de olhar para dentro e perceber que toda a gente tem ansiedades?
Em primeiro lugar, é muito fácil falar quando se está bem na vida. E isto vale para tudo. Dar conselhos e comentar uma situação quando se está bem é fácil; difícil é colocarmo-nos no lugar do outro. Em segundo lugar, temos que ter cuidado com os feitiços que lançamos, porque eles podem voltar-se contra nós. Todos nós temos inseguranças, problemas, ansiedades, dúvidas, feridas. Seja qual for o nosso sexo, preferência sexual, idade, estado civil... Por isso temos que ter cuidado com as observações que fazemos porque às vezes não sabemos bem quem temos ao nosso lado, mesmo que seja alguém conhecido. Mais: todos nós temos as nossas defesas, e mesmo esses feitiços lançados (comentários menos oportunos) podem ser defesas de quem os lança. Por vezes defendemo-nos atacando os outros.
Mas devemos fazer o exercício de parar para pensar nos outros, colocarmo-nos no lugar deles e tentar compreendê-los melhor. E também parar para olharmos mais para nós.
Se aquela festa só tinha solteiras, é porque os e as casadas estarão reunidos com outros casados e casadas. É mesmo assim: agrupamo-nos por semelhança de condições. As minhas amigas casadas, infelizmente, já não fazem nada sem os respectivos maridos.
Outro tipo de observações que me irrita é a que fazem sempre quando vou aos casamentos dos meus amigos. «Então e tu, quando te casas? Ai, uma rapariga tão gira e não casa??». Não há paciência!!
Isto parece «síndrome de Bridget Jones», e até é. Para quem viu o filme, deve ter percebido várias coisas:
a) O filme retrata, de forma ironizada, uma situação social típica da actualidade: o crescente número de mulheres solteiras, já na faixa dos trinta, e de homens divorciados mais ou menos na mesma faixa etária. Lembram-se que quer o Daniel Cleaver (Hugh Grant), quer o Mark darcy (Colin Firth) eram divorciados.
b) A figura de Bridget Jones (Renée Welzegger) era uma caricatura, ou seja, com certas características insufladas para que o filme pudesse ser uma comédia (desculpem estar a mencionar uma coisa que parece ser óbvia, mas infelizmente conheço pessoas que viram o filme e não perceberam o exagero do personagem).
c) Os comentários que os familiares e amigos de familiares da Bridget faziam, são, com o devido exagero, os comentários que as solteiras geralmente ouvem. Eu própria já os ouvi.
d) Há uma cena no filme em que o Mark Darcy (Colin Firth) diz à Bridget que gosta dela exactamente como ela é. Aleluia! Essa cena é, na minha opinião, o ponto alto do filme, tendo em conta que mostra o contraponto de tudo o que aconteceu até aí. Ou seja, a Bridget, por muito que não queira, acaba por ser condicionada pelo preconceito social a respeito das solteironas (não se casou nem tem namorado, logo tem «defeito»), e por isso age de forma algo «estranha» a tentar fazer as coisas certinhas, de acordo com as exigências sociais e familiares. O esforço é muito grande, entre a revolta aos comentários e o desejo de aceitação. E quando finalmente Darcy tem o vislumbre, inteligência, sensibilidade, de compreender e assumir que gosta dela como é, está a fazer (porque quer, evidentemente) aquilo que qualquer pessoa deseja: que se coloquem no nosso lugar e nos aceitem como somos (o que não implica que não se debatam outras questões). Se repararem, é a partir desse momento da história que a Bridget relaxa.
Conheço várias mulheres lindas, mais bonitas que muitas jovens de 20 anos, inteligentes e cultas, que estão sozinhas aos trinta e tal anos. Eu incluída (sim, estou a vangloriar-me). E gostava que as pessoas fossem mais tolerantes e parassem um pouco para pensar: «Porquê?». E antes de assumirem num ápice que «devem ter defeito, devem ser histéricas, devem ter uma doença contagiosa, devem ser burras na quinta casa, devem ser loucas, devem ter mau feitio, devem ser frígidas, devem.....», por favor, pensem que temos feridas, medos, ansiedades, vontade de fazer outras coisas antes de casar, desejos, mágoas, alegrias de que não prescindimos, enfim... não somos o monstro «trintona solteirona» que por aí apregoam.
E digo-vos: conheço muitos homens nesta faixa etária, também solteiros, que também têm os seus medos e desejos. E que também têm epítetos, mas que ironicamente são mais facilmente aceites pela sociedade, porque é «mais normal» um «trintão solteirão» que tem muitas namoradas, que uma «trintona solteirona» que já devia era estar com a barriga encostada ao fogão e a cuidar de crianças.

Ora, tenham paciência!
___________________________

Uma amiga minha, também «trintona solteirona», fez este comentário ao meu artigo:

«Sabes que por vezes penso que a Bridget Jones encarnou em mim... mas depois penso também: "Então onde estão os gajos a lutar por mim à porta do restaurante ao som do It's raining men?"».

Por acaso já repararam que o filme começa com «All by myself» e termina com «It's raining men»? ALELUIA!

YESSSSS!!!! =0)

Rectificação: Daniel Cleaver representa o trintão solteirão, eterno namoradeiro e com a mania que é esperto, que mente e não tem escrúpulos; Mark Darcy representa o divorciado magoado e que parece que por ter sofrido na pele a perda, sabe dar valor aos sentimentos e respeitar as mulheres.
publicado por 30girl às 15:28

Adorei o seu post! Na verdade, completo 30 anos este ano, sim, preferi morar na Europa, estudar, conhecer outros horizontes antes de me assentar na vida... Aqui no Brasil é a MESMA cobrança, bem pior do que na Inglaterra. Sei que em Portugal tb se cobra DEMAIS da mulher... Enfim, é difícil estar solteira, mas creio que, quando eu finalmente encontrar o homem "certo" ele vai gostar de mim do jeito que sou ;)
Anny Shoegazer a 14 de Fevereiro de 2004 às 18:28

Obrigada pelos vossos comentários. E já agora, algumas estratégias? ;)

E gostava de saber opiniões de homens também, mesmo de fonte indirecta.
30girl a 4 de Fevereiro de 2004 às 03:07

N sabes como me identifico c o q escreveste. Eu tb sofro na pele o preconceito da "trintona solteirona". Acho q é preciso grande poder de encaixe, ie, definir o teu lugar nesta sociedade q esta estruturada em casados, divorciados, viuvos, gays, playboys, solteiros até aos 27/8 maximo! (Os q terminam a universidade mais tarde). Encontrar uma justificaçao p uma MULHER estar solteira aos trinta é coisa dificil de arranjar. Acho q somos uma geraçao q apanhamos a transiçao da sociedade patriacal levada ao extremo p a sociedade dos nossoa dias com uma mulher ja emancipada e auto suficiente, daí o nosso desajuste. Acho q o mesmo ja n se passa c a actual geraçao dos vintes.
Quanto aos homens da nossa geraçao tb os compreendo, pq de repente viram-se deparados c mulheres muito diferentes das referencias educacionais q tiveram.
Acho q ha aí muito peixe fora de agua- especialmente homens- n sabem como agir. Conheço muitos nesta faixa etaria (30-40).
E para partilhar um pouco da minha experincia contigo; tive duas aproximaçoes nestes ultimos anos do genero: "tou aqui, chegou o teu prícipe encantado", como se uma mulher so por estar solteira estivesse a espera " do salvador".
Acho q ha q relaxar e viver a vida dia-a-dia, n viver na ansiedade do amanha, nem de nos deixarmos influenciar por aqueles q nos criticam pois so o faz quem n esta bem consigo mesmo.
Eu estou muito bem comigo propria e tento viver a vida tal qual como ela se me apresenta- da melhor maneira sem estrangular o presente em prol de um futuro q n sei como vai ser. Acho q esta é a chave p se viver feliz, independentemente do estado civil, profissao, raça, meio social, etc.
Tenho 33 anos, vivo sozinha ha 4, tive experiencias de vida comum c 2 namorados.
trintapermanente a 3 de Fevereiro de 2004 às 11:21

Concordo com tudo aquilo que dizes neste post. Não sou solteira mas tenho amigas solteiras e compreendo muito bem tudo o que dizes. Até a mim me irrita ouvir os comentários idiotas às "trintonas solteiras". Será que as pessoas acham que só há um destino para a mulher: casar e ter filhos? Estariamos mal se assim continuasse a ser. Força com o blog. Alya
Alya a 15 de Janeiro de 2004 às 01:05

Beijoka menina ;) . Nice blog
Bizkoito a 11 de Janeiro de 2004 às 04:39

Vamos lá... Primeiramente como e quem eu sou... 34 anos, divorciado, minha ultima relação teve 9 anos de namoro e 6 de casado, não tenho filhos, não traio a esposa (não curto), sou feminista assumido, financeiramente resolvido, extremamente selectivo ... pode até parecer mais não sou chato ;-) porém meu estilo é sério com uma pitada de divertido... Meu IMC atualmente é 28, não sou George Clooney, mas minhas primas me enchem a bola falando que tenho muita presença... mas me considero um cara normal.

Bom, eu gosto e procuro pessoas no perfil que vcs se classificam "solteironas", não sei explicar mas são essas que prendem minha atenção, sempre na casa dos 30. A ultima que chamou minha atenção tinha 38.

Situados (as)... quero trazer um alerta e estimular a reflexão, quando a pessoa aprende a se resolver (psicológica/emocionalmente/financeiramente) sozinha, passa a viver num mundo só dela, por vezes acha isso perfeito e tem um certo receio que isso venha a ser destruído por um relacionamento que pode dar certo ou não... isso é só uma tese, pois cada pessoa é única com suas marcas e características pessoais.

Eu fico tentando me aproximar, mas sinto vcs fechadas d+. Gente eu não consigo nem chegar perto. Não foi só com uma, não foi só uma tentativa, não repeti minhas ações... não sei explicar só sei que nem amigo mais próximo eu estou conseguindo ser. Simplesmente não rola nada. De longe vcs até olham mas de perto ficam na defensiva... to falando assim pq a cena se repetiu.

As vezes eu acho que transpareço muita seriedade e talvez assuste pessoas que não querem compromisso... será? Não sei? Normalmente quando a gente observa um problema e não acha uma resposta sempre terminamos nos culpando ou tentando observar falhas em nossas ações...

Meninas, realmente eu não sei explicar. Só sei que ta acontecendo!

Esse foi meu testemunho, espero ter ajudado e trazido a reflexão de todos.
Abs
Romero a 12 de Maio de 2012 às 15:51

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