Coisas de trintona...

Janeiro 04 2004
Voltei. Ao fim de algum tempo decidi voltar, mas para vir apagar este blog. Nem sei bem porquê. Continuo na dúvida.

Enquanto tomo uma decisão, cumpro o prometido: partilhar a ideia de que às vezes é preciso parar. Passamos muito tempo a olhar para os outros, a criticar os outros, a fazer exigências aos outros, a cobrar aos outros... e esquecemo-nos de olhar para nós mesmos, criticar-nos, fazermos uma análise de nós mesmos, do nosso comportamento. Disseram-me há dias que «somos muito mais responsáveis pelo que se passa à nossa volta do que aquilo que pensamos» e a partir daí decidi parar um pouco e olhar para mim e para as minhas circunstâncias. Olhei para trás e para o agora e fiquei boquiaberta ao tomar consciência de que realmente passei tempo demais na minha vida a lamentar-me, a ter pena de mim mesma, a achar-me uma azarada e uma coitadinha, sem fazer nada, quando afinal eu é que tenho que mudar e podia já ter enveredado por outros caminhos.
Mais: tomei consciência de que tenho vivido a vida num confronto entre lamentação e ansiedade/impaciência, sempre a correr para a frente. Tanta coisa me passou ao lado! Tanta coisa que precipitei e por isso não correu bem! Que sofreguidão! Não apreciei grande parte da minha vida!
É incrível como às vezes uma série de pequenas circunstâncias conseguem confluir no tempo e no espaço para produzir um determinado efeito na nossa vida, no momento em que tinha que ser, no momento em que parecia que se sabia que produziria o efeito necessário. Foi isso que me aconteceu nas últimas semanas. Um conjunto de pequenas e grandes coisas estalaram na minha cara como uma bofetada que se dá para acalmar um estado de histeria. Uma delas foi ter «perdido» uma pessoa por ter reagido com sofreguidão e agressividade a uma situação. Fui impulsiva, exigente, agressiva, irónica. Ok, fui humana, é verdade, e errar é humano, e foi por isso que depois pedi desculpa e agora estou a assumir as consequências. Mas a verdade é que, mais uma vez na minha vida, estraguei tudo. Tomei consciência que já estraguei muita coisa na minha vida e muitos relacionamentos, por ser intolerante, impaciente, radical, exigente, intempestiva... Tenho sido muito mais responsável do que aquilo que pensava.
Serão vocês, que me lêem, capazes de imaginar, que só agora aos trinta e tal é que percebi e aprendi que cada pessoa é um mundo, que cada pessoa tem o seu ritmo (de digerir; de dar; de receber; de estar; de....), que cada pessoa tem as suas razões e perspectivas, os seus medos e ansiedades?! É incrível, não é? É nestes momentos que eu comparo mesmo a adolescência a esta faixa dos trinta; parece que voltámos à crise existencial.

Pois eu parei. Parei para pensar e sentir o que tenho feito, o que tenho dito, o que me têm dito. Parei para pedir desculpas. Parei para fazer mais pelos outros e por mim. Até pelos animais! Parei para perceber como é que recebemos na mesma medida em que damos, mesmo quando achamos que estamos a fazer tudo bem. Parei para perceber que não sei receber; simplesmente receber aquilo que me querem dar, sem condições. Parei para pensar que não sei dar, porque também só devemos dar até certo ponto (até para dar temos que respeitar os outros). Parei para perceber que o tempo é fundamental em tudo na vida. O tempo amadurece as coisas, revela tudo. Parei para perceber que o amor não nasce em 24 horas, constroi-se, e para tal é necessário paciência, tolerância, persistência, erros e perdão, conhecimento. Temos tendência a desistir logo na paixão, sem termos sequer construído qualquer coisa entretanto. E às vezes parar não é desistir, é simplesmente deixar que algumas coisas sigam um curso natural e próprio, deixando o tempo revesti-las de... daquilo que tudo e todos na vida necessitam para perdurarem.

Errar é humano, e dar uma segunda oportunidade também. E se voltarmos a errar, devemos continuar em frente, porque não podemos desistir só porque por momentos nos desviámos um pouco do caminho. Só devemos desistir depois de termos plena consciência de que fizémos tudo ao nosso alcance.

Termino com uma frase que um amigo meu me enviou como mensagem de Natal: «Só um coração aberto recebe amor; só uma mente aberta recebe sabedoria; só mãos abertas recebem presentes...»

Ter coragem não é não ter medo; é ter medo e mesmo assim ir lá. É enfrentar medos, os nossos e os dos outros, e não desistir antes de tempo. Ter coragem é seguir em frente mesmo se as pernas tremem, se não temos a certeza, se a ansiedade não desapareceu, e gerirmos tudo isso. O próprio caminho que caminhamos para alcançar um fim pode dar-nos muita coisa, e não só o fim em si. O próprio percurso pode ser interessante. Não se vive só pelos fins, mas também pelos caminhos que percorremos. Li outro dia que «as circunstâncias não fazem as pessoas, mas revelam-nas».

Às vezes levamos muito tempo para perceber coisas tão simples.
publicado por 30girl às 19:43

continua...
e se precisares de falar (ou teclar..) estou aqui... e tenho muito gosto em te ouvir.
um beijo do mocho..
mochinho a 16 de Fevereiro de 2004 às 19:03

Realmente é necessrário parar... mas depois e necessário não parar. Ter medo e ter consciência que se tem algo a perder mas que se tem tudo a ganhar. Como uma amiga especial me ensinou um dia... viver um dia de cada vez, sem pensar no que poderá vir amanhã. Levantar as mãos para o céu e agradecer o que temps hoje, não lamentar aquilo que perdemos ou aquilo que gostariamos de ter. Se querermos mesmo alguma coisa luta-se por ela, mesmo que as hipóteses sejam minimas. 30´s é a plenitude do estado de alma, a leveza de espirito e a força da vida.

Paulo Ferreira
Paulo Ferreira a 5 de Janeiro de 2004 às 11:27

Chama-se viver... e ficarias surpreendida com a quantidade de gente (eu incluido) que "acorda" e fica mais consciênte aos 30...
bearchase a 4 de Janeiro de 2004 às 21:33

O blog da segunda adolescência.
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